#6 - Para entender complemento nominal
Antes de tudo:
Feliz Ano Novo!
¡Feliz Año Nuevo!
Happy New Year!
С новым годом!
Para quem perdeu as últimas edições, por causa das festas de fim de ano, na edição 4, eu explico a diferença entre gramática normativa e análise gramatical; na edição 5, eu aponto os problemas da frase “para a linguística, não existe erro”.
E vamos à edição de hoje, em que eu dou uma pausa de questões gerais sobre o ensino de gramática, para tratar de um ponto gramatical específico.
Para entender complemento nominal
Mesmo estudantes do curso de Letras, já de semestres avançados, às vezes têm muita dificuldade para entender o que é um complemento nominal e para diferenciar entre complemento nominal e adjunto adnominal.
Neste texto, vou falar da diferença entre ambos, tentando mostrar como desenvolver uma intuição sobre os dois fenômenos.
Na minha visão, a maneira mais fácil de captar o que é um complemento de um nome é comparar o que acontece com os verbos:
Se algo se comporta como complemento de um verbo, esse algo também se comportará como o complemento de um nome equivalente.
Se algo não se comporta como complemento de um verbo, também não se comportará como o complemento de um nome equivalente.
Como assim?
Vamos falar de amor
Para ilustrar, vamos pensar no verbo “amar”.
Sendo um verbo, ele denota, na classificação da gramática tradicional, “uma ação, um estado ou um fenômeno da natureza”. Vamos aqui usar o termo “evento”, num sentido mais amplo, incluindo ações, estado (situações) e fenômenos.
Então, o que um evento de “amar” exige para ser um evento completo, com todos os participantes intrínsecos à situação?
“Amar” precisa de um “amador” e de um “amado”. Alguém para ter o sentimento. E algo ou alguém para ser o alvo de atenção do sentimento.
No exemplo (1), abaixo, “João” é amador e é o sujeito do verbo; “Maria” é o ser amado e é o complemento (ou objeto) do verbo. E ainda temos o termo “intensamente”, que dá uma informação adicional, opcional, sobre o modo do evento. Um adjunto do verbo (ou adverbial).
(1) João ama Maria intensamente.
Agora, vamos pegar esse verbo “amar” e transformá-lo num substantivo: “amor”.
Será que conseguiríamos expressar, em relação ao substantivo “amor”, essas mesmas três relações que expressamos em relação a “amar” em (1)? “João”, “Maria” e “intensamente” modificando “amor”?
Conseguimos sim, mas com algumas adaptações. “João” e “Maria” precisam ser antecedidos por preposições. “Intensamente” precisa virar um adjetivo. No exemplo (2), temos as mesmas três informações expressas.
(2) O intenso amor de João por Maria (…)
Vejamos a relação entre “amor” e “(por) Maria”. (Abaixo, eu trato dos demais elementos do exemplo). É o mesmo tipo de relação semântica que havia entre “amar” e “Maria” na frase (1): “Maria” expressa, nos dois casos, o alvo do sentimento.
Ora, se “Maria” era complemento em relação ao verbo “amar” e, (1), também será complemento em relação ao nome “amor” em (2). Eis a essência do que é um complemento nominal.
Plantando
Podemos repetir isso para outro par de verbo e substantivo derivado de verbo. Dessa vez, com um par que claramente indica uma ação física (“plantar”, “plantação”), ao invés de um estado sentimental (“amar”, “amor”).
(3) José plantou feijão.
(4) José começou a plantação de feijão.
Em (3), “feijão” é o elemento plantado, o paciente da ação de plantar. E funciona como o complemento do verbo plantar. Em (4), “de feijão” tem com a mesma relação semântica com o substantivo “plantação”, logo, é o complemento nominal de “plantação”.
Notem que o complemento nominal pode ser introduzido por preposições diferentes:
no exemplo (2), em “… amor … por Maria”, o complemento nominal foi introduzido pela preposição POR.
no exemplo (4), em “… plantação de feijão”, o complemento nominal foi introduzido pela preposição DE.
Não há uma preposição específica apenas para complementos nominais e outra para adjuntos adnominais. A preposição usada depende de outros fatores, principalmente do significado do próprio verbo/nome modificado.
Mais exemplos
Mais alguns pares, para fixarmos, antes de falarmos dos adjuntos adnominais.
(5) Joana analisou o relatório por horas.
(6) A análise do relatório durou horas.
Em (5), “o relatório” é o paciente da ação de analisar. Funciona como o complemento do verbo “analisar”. Em (6), a relação entre “do relatório” e o substantivo análise é a mesma. Logo, “do relatório” é o complemento nominal do substantivo “análise”.
Outros exemplos rápidos:
COMPRAR: “Pedro comprou uma casa” —> “A compra da casa…”
VENDER: “Elisa vende diamantes” —> “A venda dos diamantes…”
REVELAR: “O delegado revelou o nome do suspeito” —> “A revelação do nome do suspeito…”
DESCOBRIR: “Cabral descobriu o Brasil” —> “A descoberta do Brasil…”
CONQUISTAR: “O meu time conquistou a Libertadores” —> “A conquista da Libertadores…”
Você pode fazer o mesmo exercício para outros verbos: pensar, planejar, executar, prender, derrubar, etc.
Repetindo essa comparação com diversos pares de verbos e substantivos deverbais, os alunos vão entender melhor o que é complemento nominal e começar a desenvolver uma intuição a respeito dessa relação.
Depois disso, o professor deverá avançar para exemplos mais complexos e para casos mais problemáticos, inclusive com sentenças mais longas, tiradas da literatura.
E os demais elementos?
Voltemos para os pares de exemplos (1) e (2). Neles, havia outros elementos além do complemento verbal e do complemento nominal.
(1) João ama Maria intensamente.
(2) O intenso amor de João por Maria.
“Intensamente”
Em (1), o advérbio “intensamente” era um adjunto em relação ao verbo “amar”. Logo, era um adjunto adverbial (ou seja, um adjunto ao verbo).
Então, em (2), o adjetivo “intenso” é também um adjunto em relação ao nome “amor”. Logo, será um adjunto “nominal” ou adjunto adnominal.
“De João”
Mas e com relação a “(de) João”, modificando o nome “amor” em (2)? Como esse elemento seria classificado?
Em (1), “João” era o sujeito em relação a “amar”. Em relação ao nome “amor”, ele poderia ser o “sujeito adnominal”?
Aí é que a coisa se complica: para verbos, a gramática tradicional identifica três tipos de relações: (i) sujeitos, (ii) complementos e (iii) adjuntos. Mas, para os nomes, a gramática identifica apenas dois tipos: (i) complementos e (ii) adjuntos.
Não existem “sujeitos de nomes” na gramática tradicional.
[Na verdade, se alguém falar sobre “sujeito nominal”, gramáticos e linguistas não entenderiam como um sujeito de um substantivo, mas sim como um sujeito de um verbo, mas um sujeito formado por nome (não por pronome, por exemplo).]
Essa assimetria entre as funções associadas ao verbo (sujeito, complemento, adjunto) e as funções associadas aos nomes (apenas complemento e adjunto) pode ser incômoda, mas ela faz sentido.
Sujeitos são muito mais uma função da oração finita do que apenas do verbo. Tanto é assim que as orações infinitivas não aceitam sujeitos, a menos que sejam infinitivas pessoais, que são infinitivas com algumas características das sentenças finitas.
Mas isso é uma história para outro texto. Se você estiver interessado no tema, veja a minha playlist sobre verbos e argumentos lá no Youtube, especialmente o vídeo 4.
Voltando para “(de) João”: já que não existem sujeitos de nomes, a única classificação que podemos dar a “(de) João” em (2) é: adjunto adnominal.
Em suma, o que corresponder a um adjunto ou a um sujeito de um verbo será um adjunto em relação a um nome equivalente.

Notem também que “amor de João” também nos mostra que a mesma preposição, o DE, pode introduzir às vezes um complemento nominal, às vezes um adjunto adnominal, confirmando o que eu apontei antes, que não existe uma preposição exclusiva para complementos ou para adjuntos.
Ainda há algumas questões adicionais necessárias para entender os complementos nominais e adjuntos adnominais, mas a edição de hoje já está grande demais. Vamos deixar para o próximo número.
Uma curiosidade linguística:
As línguas têm modos diferentes de marcar as informações gramaticais dos verbos. Por exemplo, português e espanhol utilizam o sufixo -r para marcar o infinitivo : cantar, beber, partir. O inglês, por outro lado, usa a partícula “to” antes do verbo: to sing, to drink, to leave.
Já línguas bantu utilizam prefixos para marcar o infinitivo. Em suaíli, por exemplo, em verbos como kuimba (‘cantar’), kunywa (‘beber’), a sílaba inicial “ku” marca uma forma nominal do verbo, equivalente a um infinitivo ou gerúndio.
Porém, quando o verbo está conjugado, o prefixo “ku” é substituído por um prefixo que marca o tempo verbal. Além disso, é acrescentado também outro prefixo que marca a pessoa gramatical do sujeito. Exemplos:
em ninaimba (‘eu canto’), “na” é o prefixo de presente e “ni” é um prefixo de primeira pessoa do singular.
em unaimba, “na” é o prefixo de presente, mas “u” é o prefixo de segunda pessoa do singular.
Um livro recomendado:
Um vídeo do meu canal:
Uma ferramenta:
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Carta linguística. 13 de janeiro, anno Domini 2025. Edição 6.
Como citar este texto:
CAVALCANTE, Rerisson. Para entender complemento nominal. Carta Linguística, Salvador, 13 de janeiro de 2025. Disponível em: [https://cartalinguistica.substack.com/p/entender-complemento-nominal]. Acesso em XX mês 20XX.








Eu amo esse assunto! Geralmente, quando vou explicar a sintaxe básica para alguns alunos, uso o exemplo do nome do filme "O objeto do meu afeto". Quem seria o "objeto do meu afeto" e que papel a palavra afeto teria aqui...
Aliás, sempre amo as curiosidades linguísticas! Sempre aprendo coisas novas sobre línguas que nunca ouvi falar antes.
Feliz ano novo!!! 😊